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Economia

Tensão EUA x Irã: como a crise pode impactar a economia brasileira?

Combustível, bolsa de valores, agronegócio. Entenda como o conflito no Oriente Médio pode afetar o Brasil

Escrito por Elaine Ortiz em 08.01.2020 | Atualizado em 29.03.2020

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RESUMO DA NOTÍCIA

  • O Irã disparou cerca de 20 mísseis contra duas bases americanas no Iraque na última terça-feira (7);
  • O bombardeio foi em represália ao assassinato do general iraniano Qasen Soleimani, comandado pelos Estados Unidos; 
  • Os impactos para a economia do Brasil podem envolver aumento do preço dos combustíveis e a queda na exportação de alimentos ao Irã.

 

A relação entre Irã e Estados Unidos está cada vez mais tensa. Na última terça-feira (7), o país liderado por Hassan Rouhani disparou cerca de 20 mísseis contra duas bases americanas no Iraque, aumentando os temores de um conflito mais profundo com o país comandado por Donald Trump. O bombardeio foi a primeira represália de Teerã ao assassinato do general iraniano Qasen Soleimani, ocorrido na sexta-feira (3), em um ataque de drone militar americano. 

A pergunta que surge é como a tensão entre Estados Unidos e Irã pode impactar a economia brasileira, já que o presidente Jair Bolsonaro se colocou prontamente a favor da ação militar autorizada por Trump, em um movimento que quebra um paradigma da política externa brasileira de se posicionar de maneira neutra nesse tipo de conflito internacional. 

“Desde a Primeira Guerra Mundial, o Brasil sempre se posicionou como neutro, quando precisava entrar no conflito escolhia um lado”, explica o pesquisador da Unesp e professor de Relações Internacionais da Universidade São Judas Tadeu,  Paulo Watanabe. “No século 21, essa orientação da nossa política externa foi continuada e o Brasil seguiu a linha de que a força não deve ser utilizada nunca em um primeiro momento”.

Alguns dos problemas de se posicionar rapidamente em favor de uma nação em detrimento de outra é a questão econômica e também a diplomática. Por isso, poucos países se colocaram ao lado de Donald Trump - além do Brasil, apenas Israel apoiou os americanos no ataque contra o comandante iraniano. 

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“Isso pode gerar um desconforto diplomático em relação aos outros estados, principalmente a Rússia e a China, que estão se posicionando totalmente contra os Estados Unidos”, explica Watanabe. “Na questão comercial é necessário verificar o comércio bilateral, que é muito significativo para o Brasil já que as exportações para o Irã movimentam alguns bilhões por ano, sobretudo no agronegócio”. 

Leia mais: Os 10 maiores riscos para o mundo em 2020, segundo a Eurasia

Tensão EUA x Irã: impactos no agronegócio, nos preços dos combustíveis e nas bolsas

O Irã é o 23º país na lista dos principais importadores de produtos brasileiros e o 4º país mais importante para o agronegócio local. Apenas em 2019, os iranianos importaram US$ 2,2 bilhões em produtos alimentares do Brasil, 3% de tudo o que o país exportou neste setor. Com milho, os iranianos gastaram US$ 1 bilhão no ano passado, importando 5,4 milhões de toneladas, o que representou 13% das exportações totais do cereal.

Além disso, a escalada de tensão entre Irã e Estados Unidos pode também aumentar o preço do petróleo e elevar o reajuste dos combustíveis. Para Israel Massa, CFO do TC, a maior comunidade de investidores do mercado financeiro brasileiro, esse é justamente o principal impacto da crise do Oriente Médio. “Para o mercado de investimentos brasileiro a alta do petróleo é o principal impacto, pois pode acabar gerando uma alta da gasolina e, assim, pressionar a inflação, segurando a queda dos juros, regulada pela taxa Selic e que apresenta uma perspectiva de queda de 4,5 para 4,25 % ao ano, na próxima reunião do Copom”, explica. 

“Se o petróleo estiver muito em alta ou até mesmo se houver um evento pior no Oriente Médio, o petróleo tende a subir ainda mais e além de acabar reduzindo expectativas referentes ao juros pode também impactar a economia como um todo”, diz. 

Após a morte do general iraniano, a cotação do barril do tipo Brent chegou a subir 4%, elevando o preço a US$ 70. O Irã é o décimo maior produtor de petróleo do mundo, de acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). E é também um dos países que controlam o Estreito de Ormuz, a passagem que liga o Golfo Pérsico ao oceano, por onde é escoado cerca de um quinto da produção global da commodity. Assim, qualquer possibilidade de conflito na região pressiona para cima os preços. 

Em relação às bolsas internacionais, o clima é de total tensão.  Após os disparos dos mpisseis as bases americanas, as bolsas asiáticas chegaram a cair mais de 2% ao longo da madrugada, e fecharam todas em queda: Tóquio recuou 1,57%; Hong Kong, 0,83%; Xangai, 1,22%. Os índices futuros das bolsas americanas caíram mais de 1% ao longo da madrugada de quarta-feira (8). 

Mas, por que os EUA mataram o comandante iraniano?

Segundo o Pentágono, o ataque com míssil dos Estados Unidos perto do aeroporto de Bagdá que matou o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani, teve como objetivo  “prevenir futuros planos de ataque do Irã”, disse o governo americano em comunicado. “O general Soleimani estava desenvolvendo ativamente planos para atacar diplomatas e militares americanos no Iraque e em toda a região". A Casa Branca confirmou que o ataque foi por ordem direta do presidente Donald Trump.

Mas, o que existe atrás dessa ação? Para especialistas de Relações Internacionais uma série de interesses estão embutidos na ofensiva americana contra o Irã. “A guerra preventiva reafirma  uma posição muito forte do governo Trump e sua ideia de transformar os Estados Unidos novamente numa grande potência, o partido do presidente americano defende que os oito anos da administração de Barack Obama deixaram o país vulnerável diante do sistema internacional”, explica o professor Watanabe. “Para Trump, rivalizar contra o Irã demonstra força e que a grande América está de volta fazendo o que quer, quando quer”. 

A justificativa do ataque preventivo para neutralizar uma possível ameaça é muito questionável, principalmente na questão do Direito Internacional já que uma ofensiva de um país, fora de seu território, contra um cidadão de outra nação, só se justifica se houver evidências de que ela era necessária para conter um ataque iminente.  “Isso respinga em todo o dano que a guerra do Iraque causou, quando os americanos fizeram tentaram justificar a invasão sem aval da ONU e no final não conseguiram provar nada”, diz Watanabe. 

Além disso, 2020 é ano eleitoral nos Estados Unidos e o presidente Donald Trump está envolvido em um processo de impeachment no momento. “ Explorar esse interesse norte-americano em mostrar que ainda é um país forte, capaz de proteger suas fronteiras, suas forças nacionais, suas bases militares e ditar as regras gerais no sistema internacional pode ser uma estratégia de Trump para evitar o impeachment e ainda conseguir a reeleição”, explica o professor Watanabe.

 

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Elaine Ortiz

Escrito por Elaine Ortiz

Repórter do Portal Exponencial, com dez anos de experiência em redações de jornais e revistas. Acredita que informação de qualidade é capaz de fazer a diferença na vida das pessoas e que conhecimento financeiro tem tudo a ver com liberdade.

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