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Economia

Quais os reflexos na economia com a crise do coronavírus no Brasil?

Queda de 14% da bolsa, dólar acima de 5 reais, previsão de queda no PIB. Cenário caótico revela incerteza e medo para a economia do país

Escrito por Elaine Ortiz em 17.03.2020 | Atualizado em 29.03.2020

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Essa crise é uma pá de cal em cima do Brasil”. É assim que define o especialista Vladimir Maciel, coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, o momento que vive o país com o avanço do coronavírus e o isolamento social gradativo que teve início na última quinta-feira (12) depois que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia. 

Desde então, a economia brasileira foi fortemente impactada e o sentimento da população diante deste cenário é de total incerteza e medo, ainda mais com o registro, em São Paulo, da primeira morte pelo vírus no Brasil e do aumento de casos em todo o território nacional -- mais de 314 casos da doença estavam confirmados até a tarde desta terça-feira (17). 

A segunda-feira (16) foi um dia para ser esquecido na bolsa de valores de São Paulo: o Ibovespa, principal índice da B3, abriu em forte queda, mesmo após anúncio de estímulos dos bancos centrais dos EUA e do Brasil para tentar conter os impactos da pandemia de coronavírus na economia. 

Antes dos primeiros 30 minutos de pregão, o Ibovespa recuou 12,5% e o mecanismo de circuit breaker foi acionado, interrompendo as negociações por meia hora. Na volta do pregão, a desvalorização se manteve. Ao longo da semana passada o instrumento foi acionado outras quatro vezes. 

O circuit breaker é uma ferramenta utilizada para acalmar e rebalancear o mercado quando há quedas bruscas. Sempre que o Ibovespa cai 10%, os negócios são paralisados por 30 minutos. Retomadas as operações, se o índice continuar caindo e chegar a uma baixa de 15%, ocorre nova parada de uma hora. Se o recuo atinge 20%, os negócios são suspensos por tempo indeterminado. 

“Chegamos num ponto que em duas semanas aconteceu na bolsa o que não aconteceu em 20 anos”, diz Vladimir Maciel, do  Mackenzie. “O circuit breaker foi acionado não mais que três vezes desde que foi criado, em momentos pontuais de crise. Agora, em uma semana, já acionamos cinco vezes o recurso”, diz. 

“O que aconteceu na segunda-feira é consequência de tudo o que está acontecendo. A primeira coisa é que os agentes econômicos estão incertos enquanto a extensão dos impactos dessa crise de uma forma muito clara. A gente não sabe exatamente até quando essa crise vai persistir e quão profunda vai ser”, explica.

Leia também: Coronavírus mata centenas e abala economia. Relembre outros casos

Perspectivas de crescimento econômico para 2020

Além disso, o Boletim Focus divulgado também na manhã de ontem, revelou um cenário totalmente negativo influenciado diretamente pela expansão dos casos de coronavírus no Brasil.  Os agentes do mercado financeiro reduziram suas estimativas para os juros e para o crescimento econômico do país em 2020. 

Em linhas gerais, a nova previsão para a taxa de juros é de 3,75%, corte de 0,50 ponto percentual ante a semana passada. Sobre o Produto Interno Bruto (PIB), estima-se que o avanço não passará de 1,68% -- na semana passada, a previsão era 1,99%. O dólar deve continuar beirando os 5 reais, a inflação deve ter um acumulado de 3,10%, ante 3,20% na semana passada, e abaixo do centro da meta do Banco Central, de 4%. Já a produção industrial deve ter previsão de crescimento de 1,63%, ante os 2% estimados na semana passada.

Infelizmente a gente vai consolidar a década perdida, 10 anos que o Brasil não saiu do lugar e a gente começa uma nova década já muito desacelerados, vamos começar em recessão”, diz Vladimir Maciel.  

“Nessa história, a gente perde produtividade, perde a relação formal com empregador, a capacitação vai embora, investimentos, máquinas e equipamentos ficam defasados tecnologicamente. O efeito a longo prazo é uma crise profunda depois de um período muito longo de recessão”, explica Vladimir. 

O especialista afirma que o Brasil estava com muita dificuldade para se recuperar da crise de 2016 e quando começou a melhorar, com a produção industrial crescendo, surgiu o coronavírus e deixou as perspectivas mais nebulosas. 

“Já estávamos debilitados pelas nossas escolhas enquanto país, o mundo está sendo afetado, mas para gente é pior. Perdemos uma década de crescimento econômico e vamos ficar mais uma correndo atrás do prejuízo, esse vai ser nosso maior desafio, desemprego, pobreza, tudo isso é muito preocupante”. 

Leia também: Coronavírus: especialista explica os impactos na economia

O que fazer com os meus investimentos?

O ciclo de queda nas taxas de juros do Brasil levou mais pessoas a investirem na bolsa de valores. Agora, com a queda histórica da B3, muitos novos investidores estão assustados e não sabem como agir diante da crise. 

Nesta terça-feira (17), agentes de mercado chegaram a pedir o fechamento das Bolsas de Valores, para “esperar o pânico passar”. A ideia é não só suspender as operações na B3, mas organizar uma operação conjunta de todas as Bolsas no mundo, de forma a conter as retiradas de recursos que estão afundando os índices globalmente. 

“Pode ser que travar a Bolsa por um tempo seja uma forma de evitar uma queda dos papéis”, diz Vladimir, do Mackenzie. “A principal orientação no momento para as pessoas que estão desesperadas é não agir por impulso para evitar o efeito manada. É respirar, ter calma, e entender o contexto daquela ação. Está vendendo porque? Porque está todo mundo vendendo ou porque essa empresa de fato vai ter um impacto? Muita gente passa vender mesmo sem fundamento, não agem pelo racional”. 

Uma recomendação importante é primeiro é conversar com especialistas e analistas, consultar quem é do mercado, analisar que tipo de papel, que tipo de empresa está nos ativos que a pessoa comprou antes de tomar uma decisão mais impulsiva. Tem empresa que no meio da crise acaba lucrando mais, por isso é importante identificar o que está na sua cesta e não aderir ao comportamento de vender tudo. 

“Tem que ficar atento a isso, as ações estão caindo, mas vão se recuperar”, alerta Vladimir. “É necessário ter mais frieza, parar, analisar, conversar com quem entende, ver qual setor vai s e recuperar, ter essa frieza que não é fácil em desespero. Afinal, a crise não é eterna. Vai se recuperar. Quem conseguir comprar papéis que agora estão muito baratos vai conseguir ganhar muito dinheiro com isso no longo prazo”. 

Leia também: Coronavírus impacta bolsa e reduz ganhos em investimentos

Quais outras medidas podem ser tomadas para  impactar menos a economia?

O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou também na  segunda-feira (16) um pacote de R$ 147,3 bilhões em medidas emergenciais contra os impactos econômicos do novo coronavírus (COVID-19). Entre elas estão a antecipação da segunda parcela do 13º de aposentados e pensionistas do INSS para maio, a antecipação do abono salarial para junho e a transferência de recursos não sacados do PIS/Pasep para o FGTS, de forma a permitir nova liberação de saques.

"A cada 48 horas podem surgir novas medidas", disse Guedes ao anunciar as ações do governo. Do total de recursos, R$ 83,4 bilhões serão voltados à população considerada mais frágil, sobretudo idosos e mais pobres. Dentro desse valor, e entre as novas medidas, R$ 23 bilhões se referem à antecipação da segunda parcela do 13º de aposentados e pensionistas do INSS para maio; R$ 21,5 bilhões em valores não sacados do PIS/Pasep transferidos para o FGTS para permitir novos saques; R$ 12,8 bilhões liberados em antecipação do abono salarial para junho e R$ 3,1 bilhões destinados como reforço ao Bolsa Família. 

“Ações nesse sentido de colocar dinheiro para manter o mínimo de poder de consumo são positivas, mas são medidas paliativas”, diz Vladimir Maciel. “O que o governo tem que fazer é passar tranquilidade e dominar essa situações de controle do espalhamento do vírus, isso vai ser muito mais efetivo. O quanto antes voltar a normalidade, melhor”.

Leia também: Coronavírus impacta mercado financeiro e pode reduzir PIB global

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Elaine Ortiz

Escrito por Elaine Ortiz

Repórter do Portal Exponencial, com dez anos de experiência em redações de jornais e revistas. Acredita que informação de qualidade é capaz de fazer a diferença na vida das pessoas e que conhecimento financeiro tem tudo a ver com liberdade.

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